Marcos, Cap.2 v.1 a 12
1 E alguns dias depois entrou outra vez em Cafarnaum, e soube-se que estava em casa.
2 E logo se ajuntaram tantos, que nem ainda nos lugares junto à porta cabiam; e anunciava-lhes a palavra.
3 E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro.
4 E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico.
5 E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados.
6 E estavam ali assentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seus corações, dizendo:
7 Por que diz este assim blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus?
8 E Jesus, conhecendo logo em seu espírito que assim arrazoavam entre si, lhes disse: Por que arrazoais sobre estas coisas em vossos corações?
9 Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados; ou dizer-lhe: Levanta-te, e toma o teu leito, e anda?
10 Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico),
11 A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa.
12 E levantou-se e, tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos.
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Comentário
A Gênese - Cap. XV
15. - Que significariam aquelas palavras: Teus pecados te são remitidos e em que podiam elas influir para a cura? O Espiritismo lhes dá a explicação, como a uma infinidade de outras palavras incompreendidas até hoje. Por meio da pluralidade das existências, ele ensina que os males e aflições da vida são muitas vezes expiações do passado, bem como que sofremos na vida presente as conseqüências das faltas que cometemos em existência anterior e, assim, até que tenhamos pago a dívida de nossas imperfeições, pois que as existências são solidárias umas com as outras.
Se, portanto, a enfermidade daquele homem era uma expiação do mal que ele praticara, o dizer-lhe Jesus: Teus pecados te são remitidos equivalia a dizer-lhe: Pagaste a tua dívida; a fé que agora possuís elidiu a causa da tua enfermidade; conseguintemente, mereces ficar livre dela. Daí o haver dito aos escribas:Tão fácil é dizer: Teus pecados te são perdoados, como: Levanta-te e anda. Cessada a causa, o efeito tem que cessar. É precisamente o caso do encarcerado a quem se declara: Teu crime está expiado e perdoado, o que equivaleria a se lhe dizer:Podes sair da prisão.
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Elucidações Evangélicas – Antonio Luiz Sayão
Centro Espírita Léon Denis Curas Relatadas nos Livros Espíritas
(Estudo para o Encontro Sobre Medicina Espiritual)
Jesus curou o paralítico pelo mesmo meio de que se serviu para operar as outras curas de que já temos tratado — pela ação magnética, desenvolvida sob o influxo da sua poderosa vontade.
Como as demais, também essa cura foi qualificada de — milagrosa, foi considerada um milagre pela multidão, pelos escribas e pelos fariseus.
Entretanto, conforme havemos mostrado, semelhantes fatos, por isso mesmo que se acham ao alcance de todos os Espíritos que já chegaram à perfeição moral e que, conseguintemente, já realizaram imenso progresso intelectual, nada têm de maravilhosos, são, ao contrário, absolutamente naturais.
Os fariseus e os escribas se escandalizaram e o consideraram um blasfemo, por haver dito ao paralítico, ao lhe efetuar a cura — Teus pecados te são perdoados, entendendo que o divino Mestre se arrogava um privilégio da Divindade. Jesus, que lhes lia os pensamentos, observou-lhes que, para o efeito objetivado, tanto fazia que dissesse o que havia dito, como dizer ao doente: Levanta-te e anda.
Dois ensinamentos da mais alta importância aqui se encerram, que merecem ser assinalados.
Tendo declarado, por mais de uma vez, que — não viera julgar o mundo, que não julgava a ninguém, que só Deus julga, Jesus, quando proferiu a primeira daquelas frases, evidentemente não o fez desempenhando uma função que lhe pertencesse, ou exercendo uma autoridade suprema de que se achasse investido, pois que somente no caso de lhe caber a função de ‘Juiz”, de Julgador, com competência para condenar, lhe caberia a de perdoar.
Mas, sendo assim, como de fato era, o declarar Ele abertamente que ao paralítico os pecados lhe eram perdoados equivalia a afirmar que se achava investido de uma missão divina, que estava no mundo como o enviado, o Cristo do Senhor, como o Messias de há muito prometido aos homens, como o Verbo de Deus, visto que lhe exprimia com exatidão os pensamentos e cumpria fielmente os desígnios, estando em união perfeita com o Criador, sendo um com Ele.
Mas, que Espírito encarnado, por maior que seja a sua elevação, por mais alto que seja o grau de sua pureza, poderia, ou poderá reconhecer-se, em consciência, e proclamar-se investido de um mandato dessa natureza, o mais alto que possamos conceber? Nenhum.
Se, portanto, Jesus, em quem, sem blasfemar, ninguém seria capaz de apontar o mais leve resquício de orgulho, se reconhecia e proclamava na posse de tão sublimada investidura, é que não se encontrava na condição de encarnado, não sofria as limitações da encarnação humana, limitações que, por muito ligeiras que as imaginemos ou suponhamos, lhe impediriam ter dela consciência e o fariam pô-la em dúvida, ainda que algum Espírito elevado lhe viesse revelar. E nenhum lhe fez semelhante revelação, nem pudera fazer, submetidos que todos estavam, como Ele o demonstrou, à sua superioridade de governador do planeta terreno, de diretor e protetor da Humanidade a que pertencemos.
Jesus, pois, era sempre, como consta na Revelação da Revelação, Espírito livre, cônscio da sua perfeição e do seu mandato, Espírito que, mesmo quando visível aos homens, se encontrava nas regiões excelsas da mais absoluta pureza, lá onde não podiam ir os que o acompanhavam e seguiam de coração aberto os seus ensinos: “Procurar-me-eis e não me achareis e onde eu estou não podeis vir”. (João VII - ver.34)
O outro ensinamento decorre da circunstância de haver Jesus, para curar o paralítico, usado da fórmula: Teus pecados te são perdoados, por mostrar essa circunstância, claramente, que a causa da enfermidade daquele homem eram os seus pecados, donde logicamente se deduz que outra não é a dos sofrimentos peculiares à encarnação na Terra e, por conseguinte, a da encarnação mesma, que, assim, não significa, para os que a sofrem, como pretende a Igreja Católica, expiação da falta de Adão e Eva (figuras simbólicas), falta a que Jesus certamente não teria deixado de aludir, se fora real, dada a sua capital importância nos destinos da Humanidade que lhe está confiada. Ele, porém, nenhuma alusão fez jamais a semelhante falta.
Em suma, dando a ver que o sofrimento do paralítico lhe advinha de seus pecados e declarando-os perdoados, não por ato seu, mas em cumprimento da vontade de Deus, ou seja — em observância da lei, Jesus revelou, mais uma vez, naquela ocasião, o poder de que dispunha, superior a todas as possibilidades da inteligência humana, por efeito da sua extrema perfeição espiritual, que o constituía agente direto da autoridade divina, ante a qual todas as criaturas têm que curvar a cabeça.
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